Ibovespa despenca aos 112 mil pontos com queda da Petrobras e aumento do risco Brasil

O mercado financeiro brasileiro operou com forte aversão e incerteza nesta segunda-feira, 22, após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) determinar a troca do comando na Petrobras na sexta-feira passada, 19, e sinalizar que novas mudanças devem ocorrer nesta semana. O Ibovespa, o principal índice da Bolsa de Valores brasileira, fechou com queda de 4,87%, aos 112.667 pontos. Como já era esperado, a queda é liderada pelas ações da Petrobras, com queda de 20,5% em papéis ordinários (PETR3) e 21,5% dos preferenciais (PETR4). A insegurança dos investidores com o risco Brasil também impulsionou o dólar. A divisa norte-americana fechou com alta de 1,2%, a R$ 5,453. A divisa chegou a bater máxima de R$ 5,533, enquanto a mínima não passou de R$ 5,432. O dólar fechou a semana passada com alta de 1%, a R$ 5,385.

O economista Pablo Spyer analisou os efeitos sentidos pelo mercado após a interferência do governo no comando da Petrobras. “Obviamente a interferência caiu mal aos ouvidos de investidores internacionais, preocupa o mercado. Hoje, apenas na abertura do pregão, a Petrobras está caindo 20% e a bolsa 5,5%. As interferências atraem apreensão porque nos remetem aos momentos em que os governos interviam nas estatais, nos preços e, até mesmo, nos juros. A decisão de Bolsonaro eleva os nervos do mercado e traz nervosismo, mas pode ser uma oportunidade de compra de ações, não dá para saber o futuro. Ainda é preciso esperar e analisar a presidência de Silva e Luna para tirarmos conclusões”, disse. Enquanto algumas entidades recomendam a venda das ações diante do risco gerado pelo movimento de Bolsonaro, outras enxergam uma oportunidade para investidores comprarem os papéis na baixa com a perspectiva de nova valorização no longo prazo.

A intervenção na presidência da Petrobras e o risco de guinada da política econômica brasileira monopolizam a atenção dos investidores neste início de semana. Bolsonaro anunciou na sexta-feira, após o fechamento do mercado, a escolha do general Joaquim Silva e Luna para substituir Roberto Castello Branco na presidência da Petrobras e como Conselheiro de Administração da empresa. A troca se deu em meio ao aumento das tensões entre o presidente e a estatal após o anúncio de novos reajustes da gasolina e do diesel, publicados na quinta-feira, 18. O pedido de demissão foi seguido de uma série de críticas e novas ameaças do de Bolsonaro. Nesta segunda-feira, o presidente voltou a tocar no assunto dizendo que a Petrobras tem único viés de favorecer um pequeno grupo. No sábado, ele afirmou que novas mudanças ocorreriam nesta semana e criticou a gestão de Castello Branco. Bolsonaro também afirmou que o valor da gasolina poderia estar 15% mais barato se os órgãos de fiscalização “estivessem funcionando”, antes de citar a Petrobras, o Ministério de Minas e Energia, a Receita Federal, “que tem que ver nota fiscal, e não vê”, e o Inmetro. “São outros órgãos que ninguém nunca se preocupou em fazer absolutamente nada. Quando há aumento de combustível, o pessoal aponta e atira no presidente da República. Isso vai começar a mudar, começou a mudar. Temos que tirar quem está na frente da Petrobras”, disse.

Ainda no cenário doméstico, o mercado financeiro adotou tom mais pessimista para a economia brasileira ao reduzir a projeção do Produto Interno Bruto (PIB), e revisar para cima as expectativas para o dólarinflação e taxa Selic em 2021. Segundo números divulgados pelo Boletim Focus nesta segunda-feira, 22, economistas e entidades consultadas pelo Banco Central estimam que a atividade econômica cresça 3,29% neste ano, ante projeção de 3,43% na semana passada, e 3,49% há um mês. Ao mesmo tempo, as fontes da autoridade monetária enxergam espaço para maior pressão inflacionária. A estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial da inflação brasileira, é de 3,82%. Essa é a sétima revisão de alta seguida. Na publicação anterior, a previsão era de 3,62%, enquanto há um mês registrava alta de 3,5%. O novo valor está acima do centro da meta de 3,75% perseguida pela autoridade monetária nacional, com margem para flutuar entre 2,25% e 5,25%. O Boletim Focus também revelou nova alta da Selic, o principal instrumento do Banco Central para o controle da inflação. A expectativa é que a taxa básica de juros da economia brasileira encerre o ano a 4%, acima dos 3,75% previstos há uma semana, e 3,5% há um mês .As fontes ouvidas pelo Banco Central também se mostram mais cautelosas com o câmbio, com previsão de avanço para R$ 5,05 em 2021, ante estimativa de R$ 5,01 na semana passada, e R$ 5 há um mês.