Pesquisa mostra que 92% das instituições do mercado de capitais já usam inteligência artificial, acelerando automação, análise de dados e transformação profissional.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa tecnológica para ocupar espaço concreto nas decisões econômicas das empresas brasileiras. Uma pesquisa divulgada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em 11 de setembro mostra que 92% das instituições do mercado de capitais consultadas já utilizam algum tipo de IA. O levantamento ouviu 177 instituições e identificou aplicações em análise de dados, automação de processos, produtividade, gestão de riscos e suporte à tomada de decisão.
O dado ajuda a responder uma pergunta que ganha importância para empresas e profissionais: como a inteligência artificial está mudando a economia brasileira? Mais do que substituir tarefas isoladas, a tecnologia começa a alterar a velocidade com que informações são processadas, decisões são tomadas e serviços financeiros são oferecidos. Esse movimento também cria uma nova disputa por produtividade, qualificação e capacidade de adaptação.
Por que as empresas estão acelerando a adoção da inteligência artificial
O avanço da IA no mercado financeiro brasileiro mostra que a tecnologia está sendo incorporada principalmente para resolver problemas econômicos concretos. Instituições precisam analisar grandes volumes de informações, identificar riscos, acompanhar mudanças nos mercados e atender clientes com rapidez, tarefas nas quais sistemas automatizados podem reduzir o tempo necessário para processamento e análise. A pesquisa da Anbima aponta justamente análise de dados, automação e produtividade entre os principais usos encontrados no setor.
Esse movimento não está restrito ao Brasil. Uma pesquisa do Federal Reserve Bank de Nova York publicada em setembro mostra que 61% das empresas de serviços pesquisadas na região de Nova York e norte de Nova Jersey declararam utilizar IA em seus processos, contra 40% no ano anterior e 25% em 2024. O levantamento indica que a adoção está se tornando mais disseminada e ajuda a explicar por que investimentos em infraestrutura, software, computação em nuvem e ferramentas corporativas de IA continuam ganhando importância econômica.
A consequência é uma mudança na forma como empresas enxergam a tecnologia. Em vez de tratar a IA somente como ferramenta experimental, organizações passam a procurar aplicações capazes de gerar ganhos mensuráveis. Isso inclui automatizar tarefas administrativas, acelerar pesquisas, organizar documentos, apoiar equipes comerciais e identificar padrões em grandes conjuntos de dados. O benefício econômico potencial está menos em simplesmente “ter IA” e mais em integrá-la a processos nos quais tempo, precisão e escala possuem valor financeiro.
O que a IA muda para empregos, produtividade e oportunidades
A expansão da IA não significa automaticamente que todas as funções serão eliminadas. Um estudo publicado pela Organização Internacional do Trabalho em 15 de setembro, baseado em empresas chinesas, encontrou adoção ampla da tecnologia e relatou ganhos de produtividade em diferentes atividades, ao mesmo tempo em que mostrou desafios para medir esses efeitos de maneira uniforme. Entre os exemplos apresentados estão redução do tempo de recrutamento, aumento do volume de atendimento e ganhos de eficiência em processos empresariais.
Isso reforça uma tendência importante para o mercado de trabalho: muitas ocupações podem passar por transformação antes de desaparecer. Profissionais que trabalham com informação, atendimento, análise, produção de conteúdo, programação, finanças e atividades administrativas já encontram ferramentas capazes de executar partes de suas rotinas. A mudança tende a aumentar o valor de competências como interpretação de dados, supervisão de sistemas, pensamento crítico, conhecimento de negócio e capacidade de verificar resultados produzidos por modelos de IA.
Também existe um efeito econômico sobre a própria organização das empresas. Se uma equipe consegue realizar determinadas tarefas em menos tempo, a produtividade pode aumentar, mas o resultado dependerá de como a empresa utiliza essa capacidade adicional. A tecnologia pode ser direcionada para reduzir custos, aumentar a produção, criar novos serviços ou atender mais clientes. O impacto final sobre empregos e salários, portanto, não depende apenas da existência da IA, mas das decisões empresariais e das condições econômicas em que sua adoção acontece.
Investimentos em IA aumentam, mas também surgem novos riscos econômicos
A corrida pela inteligência artificial já está movimentando investimentos muito além das empresas que desenvolvem modelos. A infraestrutura necessária para executar sistemas avançados envolve data centers, chips, redes, armazenamento, energia e serviços de computação em nuvem. A PwC estimou recentemente que os investimentos acumulados em infraestrutura de IA podem chegar a US$ 31,6 trilhões até 2050, enquanto os gastos anuais com data centers poderiam subir de aproximadamente US$ 800 bilhões em 2026 para US$ 1,8 trilhão em 2050.
Esse cenário cria oportunidades para diferentes segmentos da economia, incluindo empresas de semicondutores, infraestrutura digital, energia, segurança cibernética, computação em nuvem e desenvolvimento de aplicações empresariais. Também aumenta a importância de países e regiões capazes de oferecer eletricidade, conectividade e infraestrutura adequada para grandes operações computacionais. Para economias emergentes, o movimento pode representar uma oportunidade de atrair investimentos, mas também exige planejamento para evitar gargalos de energia, infraestrutura e qualificação profissional.
Ao mesmo tempo, a concentração de investimentos em IA aumenta os riscos para empresas que apostam na tecnologia sem conseguir transformar gastos em resultados. Nos últimos dias, investidores passaram a discutir com maior atenção a sustentabilidade do ritmo de investimentos em inteligência artificial depois de alertas de executivos do setor sobre os riscos e a velocidade do desenvolvimento. A Reuters informou em 15 de setembro que essas preocupações levaram investidores a reavaliar a duração do ciclo de investimentos em IA, embora a demanda por infraestrutura continue sendo relevante.
Para empresas brasileiras, a principal questão nos próximos anos será transformar inteligência artificial em produtividade real. Isso significa escolher aplicações com retorno mensurável, preparar trabalhadores para novas funções, estabelecer mecanismos de segurança e acompanhar os custos de infraestrutura e de uso dos modelos. O avanço observado no mercado de capitais indica que essa transformação já começou, enquanto os próximos ciclos de investimento devem ampliar a presença da IA em setores ainda menos digitalizados.
A tendência é que a inteligência artificial passe progressivamente de projeto de inovação para componente permanente da estratégia econômica das empresas. O crescimento de agentes capazes de executar tarefas, a automação de processos e a integração de IA a sistemas corporativos podem ampliar esse movimento para áreas como logística, indústria, varejo, serviços e pequenas empresas. Ao mesmo tempo, produtividade não será consequência automática da tecnologia: dependerá de treinamento, infraestrutura, governança e capacidade de redesenhar processos. Para profissionais, isso torna a alfabetização digital e a capacidade de trabalhar com IA cada vez mais relevantes. Para a economia, abre uma disputa por investimentos, talentos e infraestrutura que deve continuar nos próximos anos.
Fontes:
- ANBIMA — Pesquisa: 92% das instituições do mercado de capitais já utilizam IA
- ANBIMA — IA no dia a dia do mercado de capitais
- Organização Internacional do Trabalho (OIT) — IA nas empresas e efeitos sobre produtividade e trabalho
- Federal Reserve Bank of New York — Empresas estão usando IA para transformar o trabalho
- PwC — Investimentos globais em infraestrutura de IA até 2050
