Conforme comenta Alfredo Moreira Filho, empresário que reuniu mais de sete décadas de lembranças em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, ler um livro de memórias deveria ser um ato de descontração e prazer. A afirmação parece contradizer a ideia comum de que memórias são textos solenes, escritos para deixar lições e homenagens. Na prática, muitos dos relatos mais marcantes do gênero nascem justamente de situações ridículas, fracassos e sustos que, com o tempo, viraram motivo de riso.
O humor, quando bem usado, não diminui a seriedade de uma trajetória. Ele aproxima o leitor, torna o narrador humano e ajuda a fixar episódios que, contados de forma solene, seriam esquecidos na página seguinte. Se você pensa em registrar suas próprias histórias, vale observar como o riso pode trabalhar a favor delas.
Por que o riso cabe na memória?
Toda vida acumula momentos constrangedores, e são eles que mais circulam nas conversas de família. O tombo, o mal-entendido, o plano que deu errado na frente de todos: esses episódios são lembrados por décadas porque surpreendem e porque revelam algo de quem os viveu. Transformá-los em texto é uma forma de aproveitar uma memória que já passou pelo teste do público.
Há, porém, uma condição para que funcionem no papel. O autor precisa ter feito as pazes com o episódio. Alfredo Moreira escreve que as lembranças ruins são para ser esquecidas e as boas, cultuadas, e o humor fica justamente na fronteira entre as duas: é a lembrança que doeu na hora e, com a distância, virou boa história. Sem essa distância, o relato soa como queixa.
O tropeço como matéria-prima
O recurso mais eficiente do humor memorialístico é rir de si mesmo. Quando o narrador se coloca como alvo da piada, o leitor relaxa, porque sabe que ninguém está sendo exposto contra a vontade. A autoironia também dá credibilidade: quem admite os próprios vexames parece mais confiável ao contar as próprias vitórias.
Um exemplo vem de uma madrugada chuvosa em Manaus. Ao voltar para casa, o autor foi derrubado na grama encharcada pela cadela da família, uma fila de porte enorme que decidiu brincar com a carteira dele na boca. Depois de meia hora de perseguição inútil, coberto de lama, restou bater na janela e acordar a esposa, conforme relata Alfredo Moreira Filho, rendido ao animal. A cena funciona porque o próprio narrador sai dela derrotado.

Os outros como personagens, com cuidado
Rir dos outros é mais arriscado. Parentes e amigos retratados num livro não escolheram aparecer, e uma piada que funciona numa roda de conversa pode ferir quando fica impressa. O critério mais seguro é o da afeição: o humor deve revelar a humanidade do personagem, nunca humilhá-lo.
O episódio do tio que levou um motor de popa à fazenda mostra esse equilíbrio. Ele ligou o motor com a hélice engatada, a canoa disparou, metade dos passageiros caiu no rio e a embarcação terminou presa no manguezal, com todos molhados e vivos. Ao narrar a cena, Alfredo Moreira faz questão de registrar o respeito de todos pelo silêncio do tio na volta para casa e o fato de que, dias depois, ele contratou um marinheiro para aprender a pilotar. O riso fica com a situação, não com a pessoa.
Do riso à percepção
O humor, nos melhores livros de memórias, raramente encerra o episódio. Ele prepara o terreno para uma observação mais séria, que o leitor recebe com a guarda baixa. É a estrutura da boa crônica: começa com o inusitado e termina com algo que fica.
Numa noite de farinhada, um lençol branco agitado no escuro do engenho fez os trabalhadores fugirem, convencidos de que viam uma assombração; a brincadeira, descoberta na manhã seguinte, era de um irmão do autor. O desfecho, na lembrança de Alfredo Moreira Filho, foi uma regra nova: nunca mais se raspou mandioca naquele engenho depois das oito da noite. Ao final, fica claro que rir dos próprios tropeços não diminui uma trajetória; pelo contrário, é muitas vezes o que convence o leitor a acompanhá-la até a última página.
