Uma das perguntas mais comuns, e mais injustas, dirigidas a mulheres que vivem em relacionamentos abusivos é: “Por que você não vai embora?” A pergunta parte de uma premissa equivocada: a de que permanecer é uma escolha simples, consciente e reversível a qualquer momento. A psicanálise oferece uma resposta mais honesta e mais complexa para essa questão. Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação em saúde mental e relações familiares, trabalha diretamente com mulheres que vivem ou viveram situações de abuso e observa que a dificuldade de sair não tem nada a ver com falta de coragem ou de inteligência.
O que mantém uma mulher em um relacionamento abusivo é um conjunto de forças psíquicas, emocionais e sociais que se constroem ao longo do tempo e que não se desfazem com uma única decisão. Compreender esse processo não é justificar o abuso nem transferir responsabilidade para a vítima. É reconhecer a complexidade real de uma situação que, vista de fora, parece simples, mas vivida de dentro, raramente é.
Essa compreensão é o que permite oferecer apoio de verdade, sem julgamento e sem pressa.
Por que a saída de um relacionamento abusivo raramente acontece de uma vez?
O abuso raramente começa de forma explícita. Ele se instala de maneira gradual, através de comportamentos que, no início, podem parecer ciúme excessivo, preocupação intensa ou amor possessivo. À medida que a relação avança, esses comportamentos se intensificam e a mulher já está inserida em uma dinâmica que corroeu sua percepção de si mesma e do que é normal em um relacionamento.
Nesse contexto, a saída não é um momento, mas um processo. Muitas mulheres saem e voltam diversas vezes antes de conseguir romper definitivamente com o ciclo, como observa Taiza Tosatt Eleoterio. Cada retorno não é sinal de fraqueza, mas reflexo de um conjunto de vínculos emocionais, dependências concretas e medos reais que precisam ser trabalhados com tempo e suporte adequado.
O que a dependência emocional tem a ver com o abuso?
A dependência emocional é um dos mecanismos mais presentes em relacionamentos abusivos e um dos menos compreendidos por quem está de fora. Ela não nasce do abuso em si, mas é frequentemente alimentada por ele. O agressor alterna momentos de violência com momentos de afeto, arrependimento e promessas de mudança. Essa alternância cria um vínculo emocional intenso e confuso, que a psicanálise relaciona ao que se conhece como reforço intermitente.
Nesse padrão, a imprevisibilidade do comportamento do agressor mantém a mulher num estado de alerta constante e de esperança renovada. A cada demonstração de afeto após um episódio de abuso, o vínculo se reforça. A especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio, ressalta que esse mecanismo não é consciente e não depende da vontade da mulher para se instalar. Ele é uma resposta psíquica a uma situação de ameaça e instabilidade.
Como o medo e a vergonha mantêm o silêncio?
Além da dependência emocional, dois sentimentos aparecem com frequência em situações de abuso: o medo e a vergonha. O medo tem faces concretas: medo de represálias, de perder os filhos, de não ter para onde ir, de não ser acreditada. A vergonha, por sua vez, é mais silenciosa e igualmente paralisante. Ela nasce da sensação de que admitir o abuso é expor uma falha pessoal, uma escolha errada, uma fraqueza que não deveria existir.
Esses dois sentimentos frequentemente impedem que a mulher busque ajuda, mesmo quando já reconhece que a situação é insustentável. Diante disso, qualquer forma de apoio que comece pelo julgamento tende a reforçar o isolamento em vez de quebrá-lo. O acolhimento sem julgamento é, muitas vezes, o que abre a primeira brecha para que a mulher consiga falar sobre o que está vivendo.
O que a psicanálise oferece para quem está nessa situação?
A psicanálise não tem como objetivo convencer a mulher a sair do relacionamento. Seu papel é oferecer um espaço onde ela possa compreender o que está acontecendo com ela, nomear o que sente e reconstruir uma percepção de si mesma que o abuso sistematicamente destrói. Esse processo fortalece a capacidade de tomar decisões a partir de um lugar mais inteiro e mais consciente.
Para a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, o trabalho com mulheres em situação de abuso exige escuta profunda e respeito pelo tempo de cada uma. Pressionar por uma saída antes que a mulher esteja pronta pode ter efeitos contrários ao desejado. O que sustenta uma decisão de ruptura duradoura é a construção interna de recursos que permitam à mulher se ver fora daquela relação e acreditar que isso é possível.
O que muda quando o processo é respeitado?
Quando a mulher consegue percorrer esse caminho com suporte adequado, a saída do relacionamento abusivo deixa de ser apenas uma fuga e se torna uma reconstrução. Ela passa a compreender os mecanismos que a mantiveram naquela situação, o que reduz significativamente o risco de repetir o mesmo padrão em relações futuras.
Esse é o trabalho mais profundo e mais necessário: não apenas ajudar a mulher a sair de uma situação de abuso, mas ajudá-la a construir uma relação diferente consigo mesma. Uma relação baseada em autoconhecimento, em limites claros e na certeza de que ela merece algo diferente do que viveu.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
